A análise dos dados extraídos do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, realizada pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, revelou detalhes sobre a estreita relação entre o empresário e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
O documento, enviado ao ministro relator do caso, André Mendonça, e agora remetido à PGR, expõe uma teia de contatos frequentes, reuniões reservadas, contratos milionários com o escritório da esposa do magistrado e a concessão de benefícios de luxo que culminaram em mensagens de “gratidão de vida” enviadas pelo banqueiro ao ministro.
“Estamos juntos sempre. Voce [sic] sabe que tenho gratidao [sic] da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros amigos que dependem de nós tem uma dívida de vida contigo e com sua família. Muito obrigado por tudo”, escreveu o ex-banqueiro.
O ministro Alexandre de Moraes e a defesa de Vorcaro foram procurados, mas não se manifestaram até a publicação desta reportagem. Já a PGR defendeu seja declarada a nulidade do relatório da Polícia Federal que revelou a troca de mensagens e fez críticas à atuação de Mendonça. (Leia mais sobre a manifestação de Gonet no fim da matéria.)
Além disso, as mensagens revelam um tratamento informal e frequência de encontros. Vorcaro se referia ao ministro informalmente como “meu caro” e, em conversas com sua então namorada, referia-se a Moraes intimamente como “Alexandre” ou “Alex” ao relatar encontros frequentes.
Vorcaro organizava jantares sociais que incluíam as esposas e prestava favores diretamente aos filhos de Moraes, como quando mobilizou sua equipe para conseguir credenciais “VIP 1” e acomodação em uma “boa mesa” para a filha do ministro e seu irmão assistirem a um treino na Arena MRV, em Belo Horizonte (MG).
Somado a isso, haveria um acolhimento e mimos de luxo. Vorcaro chegou a preparar uma “experiência completa” de lazer com cavalos e o serviço de seu chef de cozinha particular para Moraes e sua comitiva em um hotel de luxo em Campos do Jordão (SP).
Contatos entre Moraes e Vorcaro antecederam aproximação com Viviane Barci
Os registros periciais do celular de Vorcaro – apreendido em novembro de 2025 – revelam que a aproximação e contatos diretos com Alexandre de Moraes antecederam a relação formal ou comercial com a esposa do magistrado, a advogada Viviane Barci de Moraes, cujo escritório firmou um contrato milionário com Vorcaro.
Em 21 de dezembro de 2023, teria ocorrido a primeira articulação de encontro intermediada pelo ex-deputado e ex-ministro das Comunicações do governo de Jair Bolsonaro (PL) Fábio Faria.
Faria teria solicitado a placa e o modelo do carro de Vorcaro para autorizar a entrada na garagem de um endereço em São Paulo. Horas depois, Faria envia um áudio a Vorcaro relatando que o anfitrião, que seria Moraes, “gostou da conversa” e queria marcar novo encontro.
Em 26 de dezembro, teria ocorrido o segundo encontro no mesmo local. Exatamente uma hora após a chegada, às 11h43, Faria compartilha com Vorcaro os contatos telefônicos de Alexandre de Moraes, salvos sob os nomes “Alexandre de Moraes BRASILIA”, “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”, todos vinculados a um mesmo terminal telefônico.
Treze segundos depois, Vorcaro salva o número. No dia 27 de dezembro de 2023, Faria avisa Vorcaro que “Alex quer ir almoçar lá no dia 30”. Vorcaro mobiliza sua equipe em um hotel de luxo em Campos do Jordão.
No dia 30 de dezembro de 2023, é realizado um almoço para uma comitiva de nove convidados e quatro seguranças de Moraes. O chef de cozinha de Vorcaro tirou fotos com o ministro e o motorista do ex-banqueiro é disponibilizado para transportar um dos convidados de Moraes, identificado no relatório da PF como “desembargador”.
Em contraste com a relação já estabelecida com o ministro, os registros do celular de Vorcaro indicariam que seu contato com Viviane Barci de Moraes só se iniciou no ano seguinte.
No dia 11 de janeiro de 2024, o número de “Vivi Moraes” foi salvo na agenda de Vorcaro às 16h53. Segundo a PF, a perícia constatou que “não foi encontrado registro de chamadas entre Daniel Vorcaro e o contato de ‘Vivi Moraes’ antes de 11/01/2024”.
O primeiro contato ocorre às 16h48 daquele dia, quando Viviane envia a minuta do primeiro contrato de serviços advocatícios. No documento constava, segundo a PF: Prezado Daniel, boa tarde. Conforme conversamos, estou enviando minuta de contrato…”.
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Teia de relações reveladas pelo relatório da PF
O relatório da PF expõe que a relação entre Vorcaro e Moraes era sustentada por uma rede de intermediários e operadores que teriam facilitado a comunicação e a execução de supostos favores mútuos. O principal articulador político teria sido Fábio Faria, responsável por agendar jantares, repassar mensagens e gerenciar encontros sem exposição pública.
Ao ser questionado sobre as interlocuções que promoveu entre Moraes e Vorcaro, Fábio Faria afirmou à reportagem que Daniel Vorcaro o procurou para pedir uma opinião sobre a contratação do escritório de Viviane Barci de Moraes para atuar em uma disputa judicial em São Paulo.
Segundo o ex-ministro, ele recomendou o trabalho da advogada, mas disse que não participou de reuniões com o escritório nem teve conhecimento dos valores negociados entre as partes. Faria também disse desconhecer o contrato firmado posteriormente entre o Master e o escritório de Viviane.
Outro elo seria um advogado. Segundo a PF, esse advogado estaria diretamente na interlocução com o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Em março de 2025, o advogado enviou a Vorcaro uma foto ao lado de Gonet e afirmou que o PGR queria falar com o banqueiro, o que resultou em quatro chamadas telefônicas subsequentes.
No campo operacional e de eventos, uma mulher gerenciava demandas logísticas e marketing de Vorcaro. Ela coordenava, segundo a PF, diretamente com o gabinete de Moraes e com Viviane a programação de fóruns jurídicos internacionais e a emissão de passagens aéreas.
Com o objetivo de proteger juridicamente e financeiramente os negócios, um dos advogados de Vorcaro elaborava contratos para reduzir o chamado “risco reputacional” para a família do ministro. Entre as propostas, estavam estruturas societárias alternativas que permitiriam esconder a propriedade direta de determinados bens e ativos.
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Benefícios recebidos de Vorcaro pela família Moraes, segundo a PF
De acordo com os documentos e mensagens analisados pela PF, a família Moraes foi destinatária de uma série de vantagens financeiras, logísticas e de luxo providenciadas por Vorcaro.
Entre eles estavam contratos milionários e pagamentos prioritários. O primeiro contrato teria sido firmado entre o Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, em janeiro de 2024, com vigência de 3 anos e honorários mensais de R$ 3 milhões líquidos.
Vorcaro teria ordenado que esses pagamentos fossem prioridade absoluta e chegou a falar ao seu financeiro que não deixasse “atrasar um dia”, autorizando que fossem feitos antecipadamente e “sem nota”, se necessário. Em abril de 2025, Vorcaro ordenou a um diretor do Master que ninguém tivesse acesso àquele contrato para evitar vazamentos.
Segundo a PF, a perícia técnica nos metadados dos arquivos digitais revelou que Alexandre de Moraes revisou diretamente as minutas desse contrato. A primeira versão, enviada por Viviane a Vorcaro em 11 de janeiro de 2024, apontava em seus registros que, embora criada por um determinado usuário, a “última modificação” havia sido realizada pelo usuário “Ministro Alexandre de Moraes” às 16h30 daquele mesmo dia, dezoito minutos antes de o arquivo ser compartilhado.
O mesmo padrão se repetiu na versão final do documento, enviada por Viviane em 17 de janeiro de 2024, cujos metadados confirmariam que a última edição do arquivo foi feita novamente pelo usuário “Ministro Alexandre de Moraes” na noite de 15 de janeiro de 2024, às 23h04.
Um segundo contrato, desta vez com a Vikings Participações – também de Vorcaro – foi firmado em maio de 2025 com limite remuneratório de R$ 50 milhões. Não há detalhes sobre pagamentos, mas há registro de uso de aeronaves de luxo como forma de pagamento.
Associado ao segundo contrato, foi elaborado um “Termo de Acordo e Dação em Pagamento” no valor de R$ 40 milhões, representados pela transferência de cotas das empresas F24 e F53 controladas por Vorcaro. Dação em pagamento significa quitar uma dívida entregando um bem ou outro ativo no lugar de dinheiro.
Segundo o relatório, essas cotas davam direito ao uso de um jato executivo modelo Legacy 650 avaliado em mais de US$ 5,5 milhões por cota e de um helicóptero modelo EC 155 B1 avaliado em mais de US$ 1,3 milhão por cota.
Mensagens confirmariam, segundo a PF, o uso efetivo das aeronaves pela família do ministro. Um sócio de Vorcaro disse, em julho de 2025, que “já usaram aviões e helicópteros”.
Em resposta a uma pergunta sobre se estavam gostando, Viviane de Moraes escreveu ao sócio de Vorcaro que “sim, estamos gostando muito, todos que nos atenderam sempre foram muito educados e atenciosos”. Em agosto de 2025, Vorcaro ordenou à sua equipe de aviação que “não deixe de atender Barci”.
O escritório Barci de Moraes afirmou, em nota, que o ministro analisou o contrato a pedido do setor de compliance da banca, prática adotada em outros casos semelhantes, para verificar eventuais impedimentos legais e que, como Moraes nunca julgou qualquer causa envolvendo o Master, não haveria óbice à contratação.
No Fórum Jurídico de Londres, Vorcaro disponibilizou veículos blindados de altíssimo padrão com motoristas exclusivos para ministros do STF, citando nominalmente Alexandre de Moraes.
Vorcaro também autorizou a emissão de passagens aéreas internacionais para o próprio ministro para a edição de 2025 do evento.
O ex-dono do Master providenciou também ingressos na categoria “VIP 1” e acomodação em “boa mesa” para a filha de Alexandre de Moraes e seu irmão assistirem a um treino beneficente na Arena MRV, do Atlético Mineiro, clube cuja SAF era administrada por um fundo do Banco Master. Vorcaro orientou sua equipe que colocasse os irmãos juntos.
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Vorcaro pediu orientação a Moraes sobre saída do país
O nível de proximidade e confiança entre o ex-banqueiro e o ministro ficaram evidenciados em meados de novembro de 2025, período que antecedeu a Compliance Zero e a primeira prisão de Vorcaro. Diante de rumores de uma iminente medida judicial contra seus negócios, Vorcaro teria utilizado um aplicativo de notas de seu celular para redigir mensagens e enviá-las como capturas de tela de visualização única para Moraes.
Em 15 de novembro de 2025, às 21h22, Vorcaro realizou a captura de tela de uma nota altamente sensível e 11 segundos depois enviou a Moraes. Na mensagem, o ex-banqueiro demonstrava desespero com a possibilidade de ser alvo de uma operação e pedia orientações ao ministro sobre se deveria fugir do país.
Mensagens recuperadas pela PF indicam que ele havia escrito: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz […]? E o Galipolo ta sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda ja tenho que estar fora?”.
Para investigadores, a mensagem indicaria que o ex-banqueiro recorreu diretamente a Moras na tentativa de informações privilegiadas sobre investigações em andamento e avaliar a necessidade de deixar o Brasil antes de ser alcançado pelas autoridades.
Dois dias após essa comunicação, a PF deflagrou a operação e apreendeu o dispositivo que continha todo o histórico das conversas. Na ocasião, Vorcaro foi preso pela primeira vez quando tentava deixar o país. Segundo sua defesa, ele viajava a trabalho, rumo aos Emirados Árabes, onde negociaria a venda do banco.
Gonet aponta duas ilegalidades em investigação determinada por Mendonça
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, defendeu a nulidade e a extinção da petição de Mendonça. Para ele, haveria uma dupla nulidade na ordem de investigação emitida pelo ministro-relator. A primeira porque Mendonça determinou, por iniciativa própria, a investigação de pessoas específicas, sem um pedido prévio do Ministério Público ou da Polícia Federal.
Segundo Gonet, essa atuação ultrapassou os limites da função de um juiz, que deve permanecer separado das funções de investigar e acusar. Para o procurador-geral, ao determinar diretamente quais pessoas deveriam ser investigadas ainda na fase inicial da apuração, o relator assumiu um papel que caberia ao Ministério Público e à polícia.
A segunda irregularidade apontada pela PGR envolve a investigação de ministros do próprio Supremo Tribunal Federal (STF). Gonet afirma que, caso uma investigação encontre indícios de crime cometido por um magistrado, o caso deve ser encaminhado ao tribunal competente para que o colegiado decida sobre o prosseguimento da apuração. Por isso, segundo ele, o relator não poderia ter determinado sozinho o aprofundamento das investigações sobre o ministro Alexandre de Moraes.
Gonet afirma ainda que, embora a ordem judicial tivesse como objetivo analisar de forma ampla as provas recolhidas, ela acabou direcionando a Polícia Federal para investigar Moraes, cujo nome já havia aparecido em informes policiais anteriores.
O estudo produzido pela PF dedicou quase 190 das 218 páginas à busca de indícios de eventual envolvimento do ministro em ilícitos. Para o procurador-geral, se havia elementos que justificassem uma investigação contra Moraes, o relator deveria ter encaminhado o caso à Presidência do STF para que o Plenário decidisse sobre a abertura da apuração. Por considerar que essas irregularidades comprometem toda a investigação e os resultados obtidos a partir dela, Gonet pediu a extinção da petição.
Mas Mendonça já disse que enviará ao plenário da Corte o pedido de investigação Moraes, mesmo com a manifestação contrária da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra a análise.
A determinação consta no despacho que levantou o sigilo do relatório da Polícia Federal sobre as mensagens trocadas entre Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Mendonça havia pedido a manifestação da PGR, mas frisou que a deliberação dos ministros ocorrerá de qualquer forma.
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Oposição amplia ofensiva contra Moraes e pressiona por afastamento de Andrei e Gonet
Diante das revelações do relatório da PF, a oposição no Congresso ampliou nesta terça-feira (1º) a ofensiva contra o ministro Alexandre de Moraes. Além de articular um novo pedido de impeachment contra Moraes, parlamentares passaram a defender o afastamento cautelar do ministro e do diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e protocolaram uma queixa-crime contra o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
No Senado, o senador Carlos Viana (PSD-MG) solicitou ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), a realização de uma sessão com a presença de Moraes para que o ministro possa prestar esclarecimentos sobre as denúncias. Viana também afirmou que Alcolumbre terá de escolher entre pautar o impeachment ou assumir publicamente que estaria “blindando” o ministro. Segundo ele, as novas informações precisam ser apuradas pelo Congresso, garantindo a Moraes o direito de defesa. A oposição também anunciou uma obstrução no Senado para pressionar pelo afastamento de Moraes.
As medidas anunciadas também atingem a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República. A oposição quer o afastamento de Andrei Rodrigues do comando da PF por causa de mensagens atribuídas a Vorcaro nas quais o ex-banqueiro teria buscado a intermediação de Moraes junto ao diretor-geral da corporação.
Contra Gonet, os parlamentares apresentaram uma queixa-crime e questionaram a atuação do procurador-geral diante dos fatos envolvendo Moraes e Vorcaro.
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