
Hoje vai ser um dia histórico, pensou ele assim que acordou. Os olhos arregalados de quem acha que perdeu a hora. Calma, cara. Tem tempo. Levantou-se, tomou banho e café. Fez o que todos fazem àquela hora da manhã, ora pensando que hoje vai ser um dia histórico, ora cogitando como, afinal, teria morrido a bezerra. Tadinha. Vestiu o terno. Ajeitou o nó da gravata. Foi trabalhar. Hoje vai ser um dia histórico, pensou ele mais uma vez.
Já está sendo. Porque ele nunca teve que trocar um pneu na vida e… bem hoje! Sorte que a chuva deu uma trégua e que ele se lembra remotamente de como se faz. Tirou os apetrechos. Riu sozinho, sentindo os olhos do mundo zombando de suas parcas habilidades masculinas. Hoje vai ser um dia histórico, pensou ele novamente, as mãos sujas, a cara suja, todo suado, vou ter que voltar para casa e trocar de roupa, estou atrasado. Droga.
Piada tola
Chegou. Aos colegas, contou as peripécias daquela manhã. Hoje vai ser um dia histórico, disse um. Hoje vai ser um dia histórico, disse outro. E por todo o escritório ecoava este mantra: hoje vai ser um dia histórico. Nisso ele se pegou pensando que todos os dias são históricos para quem os vive. Isto é, naquelas miudezas que não figurarão nos livros. Não é histórico o dia em que você é promovido? O dia em que você cumpre todos os seus deveres? O dia em que você conhece a mulher da sua vida?, pensou ele, mas não disse nada para não parecer ainda mais chato do que já é.
Nisso passou por ele a moça. Olhos miúdos, sorriso tímido. O constrangimento natural das mulheres que têm consciência de sua beleza. Foram apresentados. Ele não sabia se oferecia a mão ou beijinhos. Optou pela mão e foi recompensado com beijinhos. Conversaram. Ela riu de uma piada tola, o que o encorajou a contar outra piada tola. Ela riu de novo. Já ali havia algo de diferente no olhar. No ar. É a história mais velha do mundo, essa. Que se repete todos os dias, para o maravilhamento dos enamorados. E, no entanto, hoje vai ser um dia histórico.

















Leave a Reply