
Olavo de Carvalho, que faria 79 anos na última quarta-feira, passou os seus sete primeiros anos de vida doente, numa cama. Nascido em Campinas, no dia 29 de abril de 1947, em uma família de classe média baixa, Olavo veio ao mundo com um problema respiratório congênito, que o deixava sem fôlego depois de alguns passos. Com a saúde extremamente frágil, o menino era cercado de todos os cuidados. Não podia brincar nem interagir com outras crianças, tampouco ir à escola.
Receba um e-mail do Briguet: Inscreva-se grátis na Newsletter do Paulo Briguet e ganhe uma crônica exclusiva por e-mail todas as semanas.
A verdade é que todos ao seu redor — familiares, vizinhos, amigos e até os médicos — não acreditavam que Olavo sobreviveria à infância. Com isso, o menino era superprotegido e poupado de sacrifícios. O mundo de Olavo era composto por cuidadores que o tratavam com solicitude e, no fundo, o consideravam digno de piedade.
Até que, um dia, como por um milagre, o menino acordou bem. O mal respiratório simplesmente desapareceu. Olavo levantou-se da cama e mostrou-se capaz de fazer o que fazem todos os meninos. De repente, a sombra da morte não mais pairava sobre aquela criança.
O problema é que Olavo, após sete anos vivendo em uma redoma, era um menino absolutamente ingênuo, sem nenhum conhecimento sobre as dificuldades e maldades do mundo. Quando ele finalmente entrou na escola e passou a conviver com outras crianças e adultos que não faziam parte do círculo familiar, tinha a permanente sensação de que estava sendo enganado por todos.
Foi aí que Olavo tomou uma decisão que determinaria os rumos de sua vida: ele seria aquele que compreende a realidade. Não mais um menino amedrontado pelo medo e confundido por ilusões, mas um homem capaz de buscar a verdade e submeter-se à sua primazia, por mais difícil que ela fosse.
Mais tarde, ele dirigiu esse pedido ao próprio Deus:
— Senhor, faça-me ver a realidade!
Olavo foi atendido: tornou-se o professor de todo um país, o homem que formou uma geração inteira de pessoas que, por sua vez, agora estão mudando o Brasil. Sem Olavo, o Brasil jamais teria aberto os olhos para a situação desesperadora em que se encontrava nas últimas décadas. Continuaríamos buscando soluções falsas e promessas ilusórias. Seguiríamos sofrendo, mas sem poder expressar ou identificar as origens de nossa dor.
Depois de Olavo, isso mudou: o que foi visto não pode ser desvisto; o que aconteceu diante dos nossos olhos não pode desacontecer. E, como ensinava o professor, o sofrimento indizível é muito pior do que o sofrimento dizível. Agora, graças ao trabalho de Olavo e de muitos outros que ele resgatou ou formou, nós sabemos identificar e expressar tudo aquilo que nos flagela.
Aquele menino doente e incapaz de perceber a realidade é a imagem do Brasil até alguns anos atrás. Olavo fez esse menino levantar-se e encarar a realidade. Mais do que isso: mostrou-nos que essa realidade se fundamenta no próprio Logos divino, o mesmo que nos prometeu a vida eterna. Portanto, cada alma humana, por ser imortal desde já, vai durar mais do que a história do universo.
Certa vez, depois de um evento em homenagem a Olavo, em São Paulo, fui abordado por um senhor simpático, que me disse, com timidez:
— Briguet, eu sou médico e ajudei a tratar de Olavo quando ele veio ao Brasil. Só queria lhe dizer uma coisa: foi ele que nos curou.
Então o médico sorriu e foi embora, antes que eu pudesse perguntar o seu nome.
Canal Briguet Sem Medo: Acesse a comunidade no Telegram e receba conteúdos exclusivos. Link: https://t.me/briguetsemmedo
VEJA TAMBÉM:
- Quatro anos sem Olavo de Carvalho, o profeta da tragédia brasileira
- Olavo e a fonte da realidade: uma história de conversão

















Leave a Reply